quinta-feira, 17 de abril de 2008

Maresia

Dois quartos, sala espaçosa, um banheiro, vista pro mar. Estava escrito vista pro mar.

- O proprietário entrega a chave em um mês. É só a senhora?

- E não é o suficiente?

Entrei exatos 30 dias depois.

Ele estava lá, me esperando: imenso, infinito, possível. Eu tinha conseguido, então, depois de tudo.

E mesmo tão longe podia ouví-los sussurrar seus demônios nas minhas costas, nas minhas entranhas. Eles ficariam doentes com a minha vitória. Ela, coitada, morreria.

“Soube da Lucélia? Está morando de vista pro mar.”

Isso mesmo, senhoras e senhores, e no Rio de Janeiro. Eu sempre soube que não era de lá.

“A Lucélia não tem jeito. Essa não vai casar nunca.”

Grandes merdas, casamento. E filho, fralda, família, deus me livre. Como se eu precisasse de mais algum motivo pra ser infeliz.

“Sai com ele, Lucélia. Menino bom, estudioso, ainda vai ficar rico. Escuta o que eu te digo: ele ainda vai te levar pra morar de vista pro mar, no Rio de Janeiro, como eu sempre sonhei pras minhas filhas.”

Só que ele já era diferente. Qualquer um podia ver. Qualquer um, menos ela.

“Bate na boca, menina. Desse jeito você morre sozinha.”

Oito anos de namoro e nada. Ele nunca encostou em mim.

“Xuxu, esse é o Ronaldo, meu parceiro do tênis. Xuxu, esse é o Patrick, meu parceiro da sinuca. Xuxu, esse é o Tomás, meu amigo que eu te falei lá da clínica.”

Me desculpe, “xuxu”, mas eu não estou interessada em saber pra quem você dá ou deixa de dar o rabo.

“Lucélia como você pode pensar isso do Pedro Augusto? Imagina se os pais dele descobrem.”

Era essa sua preocupação, mamãezinha? Sua filha podia casar com um veado e ser infeliz pra sempre, desde que ninguém soubesse. Pra puta que pariu.

“Se você contar pra alguém, nunca mais põe o pé nessa casa.“

Como é bom ser expulso do inferno. Meus sinceros agradecimentos aos meus pais, tios, primos e a todos os curiosos da pequena e fantástica Cachoeiro de Itapemirim.

“Você nem merece ser feliz, menina. Destruir uma família desse jeito. Sabia que os pais tiraram o garoto de casa? E a carreira dele, já pensou?”

Eu salvei a vida do Pedro Augusto. Salvei mesmo. Agora ele pode estar com todos que quiser, em qualquer lugar do mundo. E qualquer lugar do mundo, meus queridos, é melhor que aquilo lá.

“Ele ainda vai te levar pra morar de vista pro mar, no Rio de Janeiro.”

Dizem que maresia estraga tudo, mas essa janela não fecho nunca.
Nesse ponto você tinha razão, mamãe. Isso aqui é a coisa mais linda que existe.




Maresia

Dois quartos, sala espaçosa, um banheiro, vista pro mar. Estava escrito vista pro mar.

- O proprietário entrega a chave em um mês. É só a senhora?

- E não é o suficiente?

Entrei exatos 30 dias depois.

Ele estava lá, me esperando: imenso, infinito, possível. Eu tinha conseguido, então, depois de tudo.

E mesmo tão longe podia ouví-los sussurrar seus demônios nas minhas costas, nas minhas entranhas. Eles ficariam doentes com a minha vitória. Ela, coitada, morreria.

“Soube da Lucélia? Está morando de vista pro mar.”

Isso mesmo, senhoras e senhores, e no Rio de Janeiro. Eu sempre soube que não era de lá.

“A Lucélia não tem jeito. Essa não vai casar nunca.”

Grandes merdas, casamento. E filho, fralda, família, deus me livre. Como se eu precisasse de mais algum motivo pra ser infeliz.

“Sai com ele, Lucélia. Menino bom, estudioso, ainda vai ficar rico. Escuta o que eu te digo: ele ainda vai te levar pra morar de vista pro mar, no Rio de Janeiro, como eu sempre sonhei pras minhas filhas.”

Só que ele já era diferente. Qualquer um podia ver. Qualquer um, menos ela.

“Bate na boca, menina. Desse jeito você morre sozinha.”

Oito anos de namoro e nada. Ele nunca encostou em mim.

“Xuxu, esse é o Ronaldo, meu parceiro do tênis. Xuxu, esse é o Patrick, meu parceiro da sinuca. Xuxu, esse é o Tomás, meu amigo que eu te falei lá da clínica.”

Me desculpe, “xuxu”, mas eu não estou interessada em saber pra quem você dá ou deixa de dar o rabo.

“Lucélia como você pode pensar isso do Pedro Augusto? Imagina se os pais dele descobrem.”

Era essa sua preocupação, mamãezinha? Sua filha podia casar com um veado e ser infeliz pra sempre, desde que ninguém soubesse. Pra puta que pariu.

“Se você contar pra alguém, nunca mais põe o pé nessa casa.“

Como é bom ser expulso do inferno. Meus sinceros agradecimentos aos meus pais, tios, primos e a todos os curiosos da pequena e fantástica Cachoeiro de Itapemirim.

“Você nem merece ser feliz, menina. Destruir uma família desse jeito. Sabia que os pais tiraram o garoto de casa? E a carreira dele, já pensou?”

Eu salvei a vida do Pedro Augusto. Salvei mesmo. Agora ele pode estar com todos que quiser, em qualquer lugar do mundo. E qualquer lugar do mundo, meus queridos, é melhor que aquilo lá.

“Ele ainda vai te levar pra morar de vista pro mar, no Rio de Janeiro.”

Dizem que maresia estraga tudo, mas essa janela não fecho nunca.
Nesse ponto você tinha razão, mamãe. Isso aqui é a coisa mais linda que existe.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Nunca mais

Sai do quarto enxugando as lágrimas e resmungando alguma coisa pra si mesma. Pega uma maçã na geladeira e corta com tanta força que alguns pedaços voam no chão. Rita entra na cozinha, percebe o mau humor da amiga e cata os pedaços de maçã no chão sem falar nada, como só os grandes amigos sabem fazer.
- Bom dia.
- Rita, se o Tom ligar você diz que eu morri, tá?
- Outra vez?
- Eu não atendo aquele babaca nunca mais. Tem uma semana que eu ligo e ele não me atende, acredita? O que é que há? Quem ele pensa é? Só porque tá com namoradinha nova ele acha que pode me ignorar?
Enquanto ela fala, a faca faz golpes no ar. Rita se esquiva.
- Jô, ele namora a Bebel há 2 anos.
- Grandes coisas, Rita! A gente foi casado, entende? A gente dividiu conta, cama, casa, a porra toda. Agora vem essa garotinha que chegou ontem e não deixa ele falar comigo?
A maçã é picada em pedaços cada vez menores.
- Joana, tá ficando ridículo. Vocês têm que superar isso.
- Imagina, superar. Minha vida ta ótima, muito melhor sem ele. Diz que eu morri e pronto. – Engole pedaços da maçã e completa, de boca cheia - Não, não, melhor: diz que eu casei e viajei em lua de mel com um argentino. Ele sempre detestou argentinos.

Toca o telefone. Joana vira de costas para o aparelho, orgulhosa. Rita vai atender no quarto. Demora mais de meia hora e volta quieta.

- Quem era?
- Adivinha.
- Quem era, Rita?
- Era ele, Joana. O Tom.
- E posso saber por que você não me chamou?
- Você disse pra eu não te chamar!
- Você sabe que eu falo qualquer coisa quando estou nervosa, Rita. Você tá cansada de saber.
Começa a lavar as mãos e secar na própria roupa. Sai correndo da cozinha.
- Peraí, onde você vai?
- Ligar pra ele, claro. Explicar o mau-entendido.
- Mau-entendido? Jô, eu disse pro cara que você tava em lua de mel com o Pablo.
- Quem é Pablo?
- O seu marido argentino.
- Que marido argentino, Rita? Você tá louca?
- Você inventou o marido, eu só dei o nome. Ajudou a deixar história mais real.
- Pelo amor de Deus, Rita. Não dá mesmo pra confiar em você. Você me leva muito a sério.
Pega o telefone e começa a discar. Rita pega o telefone das mãos dela.
- Funcionou.
- Funcionou o quê, mulher?
- Ele ficou morrendo de ciúmes. Perguntou tudo sobre o Pablo.
- E você?
- Eu contei tudo. Nome completo, onde ele nasceu, cor do cabelo, como vocês se conheceram. Tudinho.
Joana senta. Larga o telefone.
- E o Tom?
-Assim que você voltar do Tahiti ele quer ter uma conversa séria.
-Tahiti?
-É lá que você está passando a lua de mel com o Pablo, darling.
- Rita, você é a única amiga confiável que eu tenho, sabia? E me conta uma coisa: como a gente se conheceu?
-A gente quem?
-Eu e o Pablo. Fiquei curiosa.
-Senta aí que é uma longa história.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Arrumando o armário

O telefone toca 3 da manhã. Ele atende preocupado, esbaforido, ele está sempre esperando uma notícia ruim. E as notícias ruins chegam exatamente assim, em telefonemas no meio da madrugada. Ele sabe muito bem.
- Alô.
- Micael, você lembra de Itacaré?
- Alice?
- O dia que a gente nadou pelado na praia.
- Alice, tá tudo bem? São 3 da manhã.
- Aquele foi o dia mais feliz da minha vida.
- O que tá acontecendo, você bebeu?
- Você não voltou lá com nenhuma mulher, voltou?
- Já sei: você tomou uma cartela inteira de Dramin. Você sempre disse que ia fazer isso quando a gente terminasse.
- A gente tava tão feliz ali que chegava a ser meio ridículo. Lembra?
- Alice, você não está no parapeito de nenhuma janela, tá?
- O dia mais feliz da minha vida.

Ele senta na cama, respira fundo. Sim, ele lembrava. Como se fosse hoje.

- Eu nunca esqueci aquele bar que nunca abria. O dono na frente, na rede, o bar sempre fechado. Quanta preguiça.
- Eles sabiam viver a vida de um outro jeito, Micael. Se a nossa vida fosse daquele jeito, talvez tivesse dado certo.


Silêncio. Era bom imaginar como seria se tivesse dado certo. Mesmo às 3 da manhã.

- O que você tá fazendo, Lica?
- Jogando fora umas fotos.
- Por quê isso? Besteira.
- Preciso de espaço nos armários.
- Às 3 da manhã?
- Agora.
- Joga fora uns sapatos, umas roupas, qualquer coisa. Mas as nossas fotos?
- Eu preciso de espaço na minha vida, Micael.
- E pra isso quer esquecer a gente. Tantos caras babacas que passaram na sua vida ocupando espaço nessas caixas aí e você vai jogar fora as nossas fotos?
- Você é o único que eu não preciso de foto pra lembrar.
- Então manda aqui pra casa, vai. Você sabe que eu tenho péssima memória.
- Tá. E olha, desculpa ter ligado essa hora. Você deve ter achado que alguém tinha morrido.
- Não, imagina, eu não tenho mais isso não. Superei.
- Terapia?
- Florais de Bach.
- Que bom. Eu vou te mandar as fotos que sobraram, pode deixar. Menos as de Itacaré.
- Tudo bem. Boa Noite.
- Boa Noite.
Ele tomou meia cartela de Dramin e dormiu de novo, como um anjo.





terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Quinta a domingo

De quinta a domingo é quando teoricamente acontecem as coisas mais legais no mundo. É quando, em tese, acontecem todas aquelas coisas que você deveria estar fazendo em vez de estar fazendo isso daí, seja lá o que isso daí for.
Mas esse blog aqui não é nenhum guia de fim-de-semana, nem perto disso, muito pelo contrário. Aqui não tem dica das últimas nem das primeiras, nome de restaurante, crítica de filme, nada disso.
O nome é esse porque eu acho que tudo que chega a virar a um texto merece uma temporada nobre. Mesmo que não seja tão bom assim.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Santo André, Bahia.

Carlindo

O pai de Carlindo tinha uma ilha. Carlindo não tem muito dinheiro, nunca saiu na Caras, não apresenta programa de TV nem nada. Mas cresceu numa ilha só dele. Carlindo aprendeu a navegar com 4 anos. Não tinha estrada por perto, nem precisava. Era tudo mar em volta.
Carlindo tem um papo gostoso, num baiano que nada tem a ver com o sotaque do Projac. Ele fica tão à vontade naquele barquinho que parece que a nau nem precisa dele e se dirige sozinha.
Umas nuvens pesadas nos seguem, o tempo está feio, mas uma gaivota pousa no alto do mastro e Carlindo diz que isso é sinal de sorte.
Foi só olhar a paisagem em volta pra comprovar que ele estava certo.

Dedé

Camarão, Iratu, carne e queijo. Um de cada, a medida perfeita para chegar bem em Mogiquiçaba. É Dedé quem nos serve os melhores pastéis da região, com Kid estranhamente à vontade em seu ombro. O cachorro, de 20 cm de comprimento e pouco mais de 1 quilo é uma figura ímpar, mas é Dedé quem rouba a cena, com sua simpatia discreta. Pergunta se somos cariocas.

- Sim!– respondemos, sempre com algum orgulho, apesar de tudo.

Dedé também viveu no Rio por 28 anos e voltou para seu pequeno bar. Mas ela gosta da cidade maravilhosa e conta que morou na Tijuca, no Méier e em São Gonçalo. Ela diz, sem qualquer deslumbre, que hoje muita gente da Globo vem comer seu pastel.
Nós sugerimos que ela monte um painel com fotos destes artistas no bar, como muitos lugares por aqui costumam fazer.
Dedé faz cara de deus me livre e ri.
- De jeito nenhum.
Dedé sabe das coisas. E é ela quem vai para nosso mural da fama.

Stephano


Imagine um folheto bem mentiroso de agência de turismo. Venha para a Bahia!, em muitas cores, splashes, coqueiros e barcos. Só que era tudo de verdade, eu juro. O restaurante de Stephano é mais um daqueles lugares em Santo André perfeitos para não se fazer absolutamente nada, degustando coisas deliciosas típicas da região. Ou nem tanto.
- Um gnochi ao funghi, por favor.
O pedido excêntrico nos rendeu um amigo.
- Quem pede funghi na Bahia?
O chef veio sentar na mesa com a gente. O italiano mais baiano que já vi.
Stephano deixou Milão para cuidar de 4 jabutis, 2 cachorros e um jardim lindo em frente ao mar.
É motivo suficiente para não querer voltar mais pra casa.
A gente quase desistiu também.

Grandes amigos

Ela desce do táxi, olha o restaurante decadente na Avenida Brasil e confere um papel amassado no bolso. Finalmente.
Ele está numa mesa bem escondida e discreta, mas não há ninguém no restaurante. Isso torna sua tentativa de ser discreto um pouco ridícula e ela ri sozinha. Ele não mudou nada mesmo.
Ele acena. Ela se aproxima.

- Oi, atrasadinha.
- Adílio, são 11 e meia, vai.
- 11 e 43.
- Você não vai brigar comigo por causa de 10 minutos, né?
- 13. 13 minutos. Mas claro, não vamos brigar por isso.
- É, não mais.
Senta e inventa coisas para ajeitar na bolsa enquanto ganha tempo para pensar em algum assunto. O trânsito estava péssimo como sempre. O calor também. Nada era assunto.
- Me fala de você, o que você tem feito? Trabalhando muito?
Ele falou primeiro, graças a Deus.
- Eu tô naqueles meus projetos alternativos, lembra?
- Ah, então ainda tá desempregada.
- Adílio.
- Eu me preocupo com você, só isso.
- Parece que vai entrar um patrocínio ótimo agora. Dessa vez acho que vai acontecer mesmo.
- É, tomara, Lúcia.
Ambos sorriem de forma constrangedora. A música ruim do local parece ficar ainda mais alta com tanto silêncio. Ele faz um gesto que a lembrou a Dona Eugênia. Boa.
- E sua mãe, como tá?
- Ótima. Sempre pergunta de você. Coisa de mãe. E o Tobias?
- O Tobias infelizmente nunca pergunta de você.
Os dois riem, um riso descontraído pela primeira vez em muito tempo. Ela continua:
- Mas ele sempre dorme no seu lado na cama. Quer dizer, no seu lado não. No lado esquerdo. O lado que você dormia, o lado da janela...
- Eu entendi.
- Coisa de cachorro. Eles têm cada coisa.
- E como tem.
Ela mexe em tudo o que há na mesa. Talheres, guardanapos, copo. Lê a marca do paliteiro. Um assunto, pelo amor de Deus.
- Viu, eu não disse que um dia a gente ainda gente ia poder sentar, conversar e rir como grandes amigos?
- É, você sempre disse isso. Não deu outra.
- O Tarik diz que duas pessoas que viveram juntas estão ligadas para sempre.

- Tarik, Tarik....Ah. O seu Tarik. Entendi. Logo se vê o gênio que ele é. “Duas pessoas que viveram juntas bla bla bla”. Grande gênio.
Ele está com ciúmes. Ela gosta.
- Não, Adílio, gênio mesmo é a piranhazinha que você deve estar comendo.
Ela está com ciúmes. Ele gosta.
- Olha, a Cindy não é nenhum gênio, mas tem uma bunda...
- A Cindy! Eu sabia, Adílio. Eu sempre soube. Comer a secretária, quanta originalidade. Vamos mudar de assunto, por favor.
-Foi você que começou. Garçom, dois chopps.
- Não, garçom, é um chopp e uma água mineral.
- Eu não acredito que esse professorzinho de alongamento fez você parar de beber. Francamente.
- Não é alongamento, Adílio, é Power Pilates. É muito diferente. O Power pilates une a mente e o corpo, é uma coisa que transcende.
- Lúcia, por favor, me poupa disso. É deprimente.
Garçom chega com a água.
- Querido, traz a água numa garrafa de vidro, tá?
Vira-se para Adílio:
- o Tarik diz que plástico tem muita toxina. Fora que vai levar uns 200 anos pra isso aqui se dissolver na atmosfera.
- Você quer me irritar, eu te conheço.
-Conhecia, Adílio. Agora o máximo que você conhece são as celulites da Cindy.
- Olha, se você quiser competir por aí, celulite por celulite...
- Adílio, vc é nojento sabia? Eu vou embora, isso sim. Isso aqui não faz o menor sentido.
Ela sai, arrastando as cadeiras.
Ele toma o chopp sozinho, meio feliz por relembrar exatamente como ela é, meio triste por eles não serem mais nada.
Sai uma hora depois e a encontra na porta.
- Cadê aquela pressa toda?
- Esse fim de mundo que você arranjou só passa táxi nos anos bissextos. E nem sempre eles param.
- Foi você que pediu um lugar discreto.
- Claro, Adílio. Não queria que ninguém me visse ao seu lado depois de tudo que eu falei ao seu respeito.
- Besteira, Lúcia. Todo mundo fala umas atrocidades quando está com raiva e depois se arrepende.
- Mas eu não me arrependi, Adílio. Continuo achando aquilo tudo o que eu disse.
- Então pra que isso? Pra que você fez tanta questão de me reencontrar? Mais uma idéia genial do Malabi?
Ela ri. Ele sempre sabia fazer isso, no fim das contas.
- Não, o Tarik nunca aprovaria essa neurose minha. Foi uma idéia ruim, só isso. Mais uma dentre tantas que já tive.
- Quem sou eu pra falar alguma coisa. Você vai pra Copa?
- Vou.
- Divide o táxi?
- É. Fica mais barato.
Pegaram o mesmo táxi, mas caminhos tão diferentes que nunca mais se encontraram.